Governo adia novamente decisão sobre aumento da mistura de etanol na gasolina

Reunião do CNPE é remarcada pela terceira vez e mantém indefinida a proposta de elevar o etanol de 30% para 32% na gasolina

O governo federal adiou, pela terceira vez, a reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) que analisaria o aumento do percentual obrigatório de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%. O encontro estava previsto para ocorrer na manhã desta quarta-feira, no Ministério de Minas e Energia (MME), em Brasília, mas foi retirado da agenda sem que uma nova data fosse anunciada.

Até o momento, o Ministério de Minas e Energia não divulgou oficialmente os motivos do adiamento. Nos bastidores, porém, a decisão teria sido influenciada por outros temas considerados estratégicos que também estavam previstos para discussão, como a política de comercialização do gás natural da União, que ainda enfrenta divergências, e a repactuação das dívidas relacionadas à usina nuclear de Angra 3.

A proposta de elevar a mistura de etanol já deveria ter sido analisada desde maio. No entanto, as reuniões destinadas à votação foram sucessivamente canceladas ou adiadas por questões de agenda e prioridades do governo.

Nova composição da gasolina deve passar a ter 32% de etanol — Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A expectativa em torno da medida ganhou força após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciar, ainda em abril, a intenção de ampliar o percentual de etanol na gasolina para 32% e o de biodiesel no diesel para 16%, antes mesmo da deliberação oficial do conselho.

Embora a proposta conte com apoio dentro do governo e do setor sucroenergético, o tema também passou por avaliações técnicas. Quando o percentual de etanol foi elevado para 30%, em 2025, foram realizados testes para verificar a compatibilidade da nova composição com a frota de veículos.

Para a nova ampliação, o Ministério de Minas e Energia defende que não há necessidade de repetir os ensaios técnicos, entendimento que gerou questionamentos de parte do setor de combustíveis e motivou novas análises antes da votação.

Além dos aspectos técnicos, o cenário internacional reforçou a discussão sobre a medida. O aumento das tensões no Oriente Médio e a alta dos preços do petróleo ampliaram as preocupações com a dependência brasileira da gasolina importada.

REUTERS/Diego Vara – Vista de drone do local de construção da nova usina de etanol da Be8

Nesse contexto, o governo argumenta que a adoção do chamado E32 pode fortalecer a segurança energética do país, ampliar o uso de biocombustíveis produzidos no Brasil e reduzir a exposição às oscilações do mercado internacional.

A possibilidade de ampliar a mistura foi viabilizada pela Lei do Combustível do Futuro, que elevou o limite permitido para a adição obrigatória de etanol anidro na gasolina, passando da faixa entre 22% e 27% para um intervalo de 22% a 35%.

Segundo estimativas do Ministério de Minas e Energia, a adoção do E32 poderá reduzir a necessidade de importação de aproximadamente 450 milhões de litros de gasolina por ano, além de evitar a emissão de cerca de 552 mil toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e).

Além dos impactos esperados para a matriz energética e para o meio ambiente, especialistas observam que a discussão ocorre em um momento de atenção ao comportamento da inflação. Como os combustíveis têm influência direta sobre o custo de vida, medidas que possam contribuir para reduzir a pressão sobre os preços também passam a ter relevância no cenário econômico e político do país.

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