Agro brasileiro ganha reconhecimento no exterior, mas ainda enfrenta dificuldade para agregar valor aos produtos

Pesquisa aponta que imagem positiva do setor não se converte, na mesma proporção, em preços mais altos e fortalecimento das marcas nacionais

O agronegócio brasileiro continua ampliando sua presença no mercado internacional e consolidando uma imagem positiva associada à qualidade, tradição e diversidade cultural. No entanto, um desafio ainda limita o avanço do setor: transformar essa reputação em maior valor agregado para os produtos exportados.

É o que revela a pesquisa Marca Brasil, realizada pela consultoria OnStrategy e divulgada nesta semana. O levantamento mostra que o agro nacional é bem avaliado no exterior em atributos ligados à cultura, identidade e beleza do país, mas ainda encontra dificuldades para converter essa percepção em maior admiração comercial e disposição do consumidor internacional em pagar mais pelos produtos brasileiros.

O estudo ouviu mais de 470 mil pessoas entre brasileiros e estrangeiros, incluindo empresários, jornalistas, influenciadores, executivos e representantes institucionais, entre outubro de 2025 e março de 2026. Segundo os dados, o setor alcançou nota elevada em reconhecimento simbólico, especialmente fora do Brasil, mas segue fortemente dependente da exportação de commodities.

Para a diretora de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Sueme Mori, o país possui capacidade produtiva ampla e reconhecida internacionalmente, porém ainda exporta grande parte da produção sem identidade consolidada de marca.

Segundo ela, o Brasil produz alimentos de alta qualidade, mas boa parte dos produtos exportados segue concentrada em commodities agrícolas, como soja, milho e algodão, o que reduz o potencial de diferenciação no mercado internacional.

Um dos exemplos apresentados na pesquisa é o estado de Mato Grosso, principal potência do agronegócio brasileiro. Apesar de liderar exportações e movimentar bilhões de dólares em vendas externas, o estado ainda possui baixo reconhecimento internacional enquanto origem produtora.

Em 2025, Mato Grosso respondeu por 17,4% das exportações do agronegócio brasileiro, somando mais de US$ 29 bilhões em vendas ao exterior. Mesmo assim, a maior parte da receita continua concentrada no complexo da soja, reforçando o perfil exportador baseado em matérias-primas.

Produtos com identidade ganham mais espaço

A pesquisa também mostra que produtos ligados à origem e à identidade cultural brasileira apresentam desempenho superior na percepção internacional. Itens como café, vinho e cacau conseguem gerar maior valorização no exterior justamente por carregarem características regionais, tradição produtiva e identidade própria.

Segundo especialistas, esse movimento acompanha uma tendência mundial em que consumidores buscam cada vez mais produtos associados à procedência, qualidade certificada e rastreabilidade.

O presidente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, Júlio César Moreira, afirma que as indicações geográficas têm papel estratégico nesse processo. Para ele, a certificação de origem fortalece cadeias produtivas locais, amplia o reconhecimento cultural e cria diferenciais competitivos capazes de aumentar o valor percebido pelos consumidores.

Um dos casos mais conhecidos é o do Queijo da Serra da Canastra, produzido em Minas Gerais. O produto ganhou projeção internacional após processos de qualificação e certificação, conquistando reconhecimento em premiações internacionais e ampliando sua presença em mercados externos.

Crescimento das indicações geográficas

Nos últimos anos, o Brasil registrou crescimento significativo no número de indicações geográficas reconhecidas oficialmente. Em 2020, o país possuía 73 certificações registradas. Em 2026, esse número já ultrapassa 150 registros.

Apesar do avanço, ainda existem desafios importantes, como o fortalecimento das associações locais, maior organização das cadeias produtivas e ampliação do conhecimento sobre o sistema de certificação entre produtores.

Especialistas avaliam que o fortalecimento da identidade dos produtos brasileiros pode abrir espaço para novos mercados e ampliar a competitividade internacional do agro nacional, principalmente em países que valorizam origem, qualidade e autenticidade.

Além do impacto econômico, a valorização das indicações geográficas também é vista como uma ferramenta de preservação cultural e desenvolvimento regional, conectando tradição produtiva, inovação e geração de renda no campo.

*Com informações CNN

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