Sobretaxa dos EUA: Especialistas alertam que retaliação brasileira agravaria perdas econômicas

Após ameaça de aplicar a Lei de Reciprocidade contra nova tarifa de 25%, governo federal recua sob pressão do mercado; indústria cobra diplomacia pragmática para evitar impacto bilionário

A iminente aplicação de novas tarifas de 25% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros colocou o governo federal em um dilema diplomático e comercial. Após sinalizar uma possível resposta enérgica, o Palácio do Planalto adotou uma postura de cautela frente aos alertas do mercado: uma retaliação brasileira poderia aprofundar as perdas econômicas e dificultar ainda mais as negociações com Washington.

A nova sobretaxa, que entra em vigor na próxima quarta-feira (22), deve atingir cerca de US$ 11 bilhões em exportações, de acordo com levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Com a medida, o Brasil passará a ser o segundo país mais tarifado pelos EUA, atrás apenas da China, registrando uma taxa média efetiva superior a 18%, segundo dados do Global Trade Alert (GTA).

O recuo do governo

A reação inicial de Brasília baseou-se no discurso de soberania nacional, semelhante à postura adotada em 2025 frente à primeira ofensiva comercial da gestão de Donald Trump. Na véspera da confirmação das novas alíquotas, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chegou a indicar ser provável o acionamento da Lei de Reciprocidade, afirmando que o país “se faria respeitar”.

O tom, no entanto, mudou rapidamente. Temendo que um revide tarifário encarecesse produtos e provocasse o aumento da inflação para o consumidor brasileiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva solicitou estudos detalhados de impacto. Na última sexta-feira (17), Durigan reajustou o discurso oficial e descartou a medida extrema: “Não cabe falar em retaliação. É uma palavra que está fora do nosso escopo e do nosso trabalho”, declarou.

Assimetria comercial e riscos

Para especialistas em comércio exterior, a prudência é a única saída viável no momento, dada a profunda assimetria da balança comercial. Nos últimos 15 anos, a relação bilateral gerou um superávit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços a favor dos norte-americanos.

José Niemeyer, economista e professor do Ibmec, avalia que o Brasil depende economicamente muito mais dos Estados Unidos do que o inverso. Para ele, oscilações no discurso prejudicam a diplomacia. “O Brasil precisa ter uma conversa próxima com a Casa Branca, independentemente das administrações”, defende.

O ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azêvedo, endossa a necessidade de repensar a estratégia e alerta que uma retaliação poderia desencadear punições ainda mais severas. “O Brasil não tem agido com criatividade nas negociações e prefere a dinâmica de pedido e oferta, algo que os Estados Unidos não esperam”, explica Azêvedo, que não acredita na reversão imediata das tarifas.

Impacto na indústria e no PIB

Enquanto o governo calibra sua resposta, o setor produtivo calcula os danos. Analistas de mercado, como Felipe Cima, da Manchester Investimentos, estimam que a nova barreira reduzirá o fluxo comercial em US$ 1 bilhão, causando um impacto negativo de aproximadamente 0,03% no Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

Entidades do setor produtivo cobram agilidade. Em nota apontando extrema preocupação, a Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) exigiu ações efetivas para preservar empregos e a cadeia de exportação. “Diante da relevância econômica e social dessa pauta, seria necessária uma atuação mais efetiva do governo brasileiro, dissociada dos componentes políticos e focada na negociação diplomática”, destacou a associação.

Com informações da CNN

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