Brasil deve superar Estados Unidos e assumir a liderança global nas exportações agrícolas

Impulsionado por avanços tecnológicos e mudanças estruturais no comércio internacional, o agronegócio brasileiro se aproxima de uma virada histórica frente ao mercado norte-americano, aponta Financial Times

O Brasil está prestes a alcançar um marco histórico na economia global: ultrapassar os Estados Unidos e se consolidar como o maior exportador de produtos agropecuários do mundo. A constatação parte de uma análise do jornal britânico Financial Times, que destaca uma reconfiguração profunda no mercado global, motivada por tensões comerciais, oscilações nos preços das commodities e o rápido avanço da infraestrutura produtiva brasileira.

A diferença de faturamento entre as duas potências se estreitou de forma acelerada nos últimos anos. Em 2025, as exportações agrícolas norte-americanas somaram US$ 171 bilhões, uma margem de apenas US$ 2 bilhões à frente dos US$ 169 bilhões registrados pelo Brasil. No entanto, com um crescimento de 6% nos embarques brasileiros apenas no primeiro semestre de 2026 — alcançando a marca de US$ 87 bilhões —, especialistas do setor já projetam que a ultrapassagem definitiva ocorrerá ainda este ano.

A perda de protagonismo dos Estados Unidos é atribuída, em grande parte, aos desdobramentos de políticas tarifárias adotadas a partir de 2018. A guerra comercial, iniciada durante a gestão de Donald Trump, fez com que parceiros comerciais de peso, como a China, reduzissem drasticamente a dependência da produção americana e redirecionassem suas compras para a soja brasileira. O avanço do Brasil aconteceu em um ritmo muito superior às projeções originais do próprio Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Apesar de contarem com subsídios governamentais bilionários concedidos nos últimos anos, produtores rurais americanos apontam que o verdadeiro entrave é a perda de competitividade e de espaço no mercado externo, e não a ausência de crédito. Diante do custo mais competitivo dos produtos brasileiros, parte expressiva da agricultura dos EUA tem se voltado para o próprio mercado doméstico. Hoje, cerca de 40% do milho plantado no país é destinado à fabricação de etanol, o que leva muitos produtores a afirmarem que, atualmente, geram mais energia do que alimentos.

Em contrapartida, o Brasil não apenas consolidou sua posição como maior produtor global de soja, carne bovina e carne de frango, como também desbancou os EUA nas exportações de algodão. O fenômeno é sustentado pela viabilidade de até três safras anuais em diferentes regiões do país, alta disponibilidade de terras, além de pesados investimentos em tecnologia e aprimoramento genético, tendo o estado de Mato Grosso como principal polo dessa expansão.

Esses movimentos econômicos também provocam mudanças sociais opostas nos dois países. Nos Estados Unidos, a concentração de terras em grandes fazendas tem reduzido a população no campo e enfraquecido economias locais e comunidades rurais. Já no Brasil, o agronegócio tem impulsionado o crescimento acelerado de cidades no interior, como Sorriso e Lucas do Rio Verde (MT), ainda que o setor enfrente o desafio constante de equilibrar essa expansão com a preservação ambiental e a resolução de gargalos históricos de infraestrutura.

A nova dinâmica do mercado indica que a disputa deixou a esfera estritamente comercial para assumir contornos geopolíticos. Segundo relatos do setor agrícola ao Financial Times, a percepção global mudou: os compradores internacionais agora recorrem ao mercado dos Estados Unidos majoritariamente quando o Brasil enfrenta problemas pontuais de oferta, consolidando o agronegócio brasileiro como a principal referência agrícola do planeta.

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