Oferta restrita e virada do ciclo pecuário impulsionam o preço da carne bovina no Brasil

Menor oferta de gado volta a encarecer cortes nobres e faz o consumidor buscar opções mais acessíveis nos supermercados

A dinâmica de preços da carne bovina no Brasil atravessa uma nova transição. Após um período de maior acessibilidade entre os anos de 2023 e 2024, cortes tradicionais do churrasco, como a picanha, voltaram a registrar alta. O atual cenário, no entanto, é guiado estritamente por fundamentos de mercado, desvinculando-se de diretrizes de políticas econômicas governamentais: trata-se da virada do ciclo pecuário, fenômeno natural do agronegócio que reduziu drasticamente a oferta de animais prontos para o abate.

Especialistas do setor explicam que o mercado pecuário opera em ciclos plurianuais. Nos anos anteriores, os pecuaristas promoveram um abate recorde de matrizes (fêmeas), o que inundou o mercado interno com carne e, consequentemente, derrubou os preços ao consumidor. No momento atual, o cenário inverteu-se. Com menos matrizes nos pastos, a produção de bezerros caiu, restringindo a disponibilidade de gado para os frigoríficos. Essa menor oferta de matéria-prima é o principal vetor que pressiona as cotações para cima em toda a cadeia produtiva.

Os reflexos dessa mudança já pesam no orçamento doméstico. Um levantamento realizado pela consultoria Safras & Mercado aponta que o quilo da picanha acumulou uma valorização de 10,8% no comparativo anual até junho de 2026, considerando valores deflacionados. O impacto direto dessa alta é a perda do poder de compra da população. Atualmente, com o salário mínimo fixado em R$ 1.621, o trabalhador consegue adquirir cerca de 19 quilos de picanha por mês — o menor patamar da série histórica recente. Para efeito de comparação, no mesmo período de 2024, a relação permitia a compra de mais de 23 quilos do corte.

Essa restrição financeira tem provocado uma alteração clara no comportamento nos supermercados. O brasileiro está substituindo as carnes de maior valor agregado por opções do dianteiro bovino. Cortes como o acém, por exemplo, registraram alta de 3,8% no primeiro semestre devido ao forte aumento na procura. Em contrapartida, o consumo geral da proteína no país, que havia atingido picos de 38 quilos por habitante ao ano, sofreu uma retração estimada em 9%, evidenciando a rápida adaptação das famílias à nova realidade das gôndolas.

Para o curto prazo, os analistas avaliam que o mercado pode registrar um alívio temporário. A desaceleração das exportações brasileiras para a China — devido ao esgotamento de cotas de importação — aliada à entrada de animais criados em confinamento, deve aumentar de forma pontual a disponibilidade de carne no mercado doméstico. Contudo, a tendência estrutural para os próximos meses é de que a arroba do boi continue firme, sustentando os preços mais elevados.

O atual cenário do mercado de carnes reafirma a força da lei de oferta e demanda. O produto, que frequentemente é utilizado como termômetro de bem-estar social e alvo de debates eleitorais, demonstra na prática que seu valor nas prateleiras obedece, de forma soberana, às variáveis climáticas, comerciais e estruturais que regem o ciclo de produção no campo.

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